Contexto
A área de tecnologia tem um problema de diversidade que se perpetua há décadas. A maioria dos profissionais são homens brancos, e esse desequilíbrio não é acidente — ele é construído por uma série de barreiras que começam ainda na escola e se estendem pelo ambiente de trabalho.
Não faltava talento feminino — faltava um ambiente que o reconhecesse. A pergunta que guiou o projeto: como o design pode ajudar a mudar isso?
Problema
Conectar mulheres a oportunidades reais na área tech, criando um espaço que de fato as acolhesse — e não mais um lugar onde elas precisassem provar o dobro para ser levadas a sério. O desafio central era de pertencimento: como projetar para quem historicamente foi excluída do próprio processo de design?
Processo
Etapa 01
Entendendo o cenário
A primeira etapa foi resistir à tentação de partir direto para o Figma. Em vez disso, mergulhamos em pesquisa: desk research para entender o cenário macro, uma Matriz CSD para organizar o que sabíamos e o que precisávamos descobrir, e depois um questionário e entrevistas para ouvir as mulheres diretamente.
O questionário chegou a 74 respondentes, recrutadas via LinkedIn e grupos da área. O que encontramos foi revelador:
Além dos números, realizamos entrevistas em profundidade via Google Meet. Os relatos foram diretos e, muitas vezes, dolorosos: "Não me sinto muito confortável com recrutadores homens." "Não me sinto bem em negociar salários por medo de ser descartada." "Já me senti desvalorizada ou ignorada no ambiente em que trabalho."
Esses depoimentos viraram nossa bússola. Toda decisão de design que viria depois foi ancorada nessas vozes.
Etapa 02
Conhecendo Sarah, a persona do EmpoderaTI
Para transformar os dados em empatia, criamos uma persona que sintetizasse os padrões encontrados na pesquisa. Sarah Alyne tem 26 anos, é desenvolvedora front-end, mora sozinha com seus dois gatos e enfrenta diariamente os obstáculos que as entrevistadas descreveram.
O mapa de empatia nos ajudou a ir além do perfil demográfico. A Sarah ouve colegas mulheres dizendo que têm medo de falar o que pensam nas reuniões. Ela vê que quase todos os líderes da sua empresa são homens. Ela sente que os processos seletivos foram desenhados pensando em outros perfis. E ainda assim, ela insiste — porque ama o que faz.
Etapa 03
Desenhando a plataforma que Sarah precisava
Com a pesquisa consolidada, partimos para a ideação. A primeira decisão foi sobre escopo: o que o EmpoderaTI deveria fazer e o que não deveria. Usamos a Matriz MoSCoW para isso.
A decisão mais simbólica foi colocar explicitamente na coluna "Won't have" uma única palavra: homens. A plataforma seria um espaço exclusivamente feminino, porque segurança e acolhimento não são abstrações — são condições de design.
O user flow mapeou os caminhos principais, do onboarding às funcionalidades de vagas, cursos, mentorias e perfil profissional. Cada tela foi primeiro esboçada em wireframes de baixa fidelidade, permitindo que o time iterasse rápido antes de investir no visual.
Para a identidade visual, criamos um Style Guide próprio. A paleta combina roxo (#7709CD), evocando empoderamento feminino, com azul (#3F93DF), que remete à tecnologia. Juntos, formam o gradiente que define a marca. A tipografia usa Roboto Slab para títulos e Roboto para o corpo.

Etapa 04
Protótipo e testes com usuárias reais
Com o protótipo navegável em mãos, conduzimos testes de usabilidade com quatro usuárias via Google Meet. O protocolo incluía tarefas específicas e, ao final, quatro perguntas abertas para capturar tanto dificuldades quanto impressões gerais.
Um problema surgiu logo nas primeiras sessões: as usuárias se sentiam desorientadas ao navegar entre páginas. O menu não deixava de forma muito visível em qual seção elas estavam. A correção foi simples, mas efetiva.
Fora isso, o retorno foi notavelmente positivo. As usuárias não apenas gostaram, como já conseguiam se imaginar usando a plataforma no dia a dia. A comparação com o LinkedIn apareceu em três dos quatro feedbacks de forma espontânea — o que validou a hipótese central do projeto: existe uma lacuna real no mercado, e as mulheres reconheceriam e adotariam uma alternativa feita para elas.
Resultado
O projeto confirmou que existe uma demanda real por espaços digitais feitos especificamente para mulheres na tecnologia. Quando as usuárias compararam o EmpoderaTI ao LinkedIn de forma espontânea, ficou claro que não estávamos apenas criando mais um produto — estávamos propondo uma alternativa a algo que nunca foi pensado para elas.
Aprendizados
A sensação de acolhimento não vem só do visual. Ela vem de decisões estruturais: quem pode se cadastrar, como as vagas são apresentadas, se há outras mulheres do outro lado do processo seletivo. Esses detalhes não aparecem nos wireframes, mas apareceram em todas as entrevistas.
Se o projeto continuasse: versão mobile e funcionalidades de comunidades e grupos de afinidade — a funcionalidade mais pedida pelas próprias usuárias.
Estudo de caso realizado em colaboração com Elienara Suane, Júlia Karine, Tamires Nascimento, Vanessa Reis, Marcos Rodrigo e Fernanda Camera.